Acho realmente divertido que as pessoas reclamem que os outros estão se aglomerando. Todos sabem que aglomerações são um fator determinante na disseminação da Covid-19 e, com exceção de dois ou três negacionistas (que já preocuparam muita gente, e agora são apenas pessoas que ocupam o espectro entre o patético e o bizarro da existência humana), ninguém desconhece a gravidade da pandemia e os meios para impedí-la. Mas o problema é que os outros estão sempre se aglomerando. Explico-me: Outro dia, uma amiga disse que foi correr em volta da Lagoa da Pampulha e que havia muita gente se aglomerando. Perguntei se ela estava usando máscara o tempo todo, e ela disse que somente quando chegava perto de alguém. Reconheço, em primeiro lugar, que é louvável o esforço em manter a saúde e a forma física em momentos tão adversos (penso se, durante as Grandes Guerras, haveria pessoas que, apesar do grande risco, decidiram, com tanta determinação, manter saúde e a forma física). Também reconheço que se o ar me falta quando corro sem máscara, imagino que, somente acompanhado por uma equipe de resgate, seria capaz de correr com máscara. No entanto, acho interessante que sejam sempre os outros que estejam se aglomerando, nunca nós.

É um comportamento usual de nosso caráter considerar que os outros são parte do problema. Nós, aparentemente, somos parte da solução. São os outros que param seus carros em filas duplas quando levam seus filhos à escola, e ainda que admitamos (com um certo tom de “eu reconheço meus próprios erros nas poucas vezes que os cometo”) que, vez por outra, também paramos em fila dupla, sempre temos uma boa razão para termos suspendido a aplicação da lei em nosso favor: estamos atrasados, é perigoso o filho de sete anos atravessar ruas sozinho, e, que diabos!, não há lugar para estacionarmos o carro. Não há nada de estranho nisso, e um pouco de bom senso justifica essas pequenas infrações, sem as quais a vida nas grandes cidades seria impossível. O que me soa estranho é que não nos ocorra que os outros também tenham os mesmos motivos para pararem em fila dupla. Ou que os outros tenham os mesmos motivos que nós para aglomerarmos durante a pandemia. O fato é que o casal de namorados que passeava em volta da Lagoa da Pampulha deve ter apontado para minha amiga e dito: olha lá, mais uma que veio aglomerar; e, ainda por cima, sem máscara!

É fácil evitar que as pessoas se aglomerem: simplesmente não saia de casa. Não seja, você também, parte da aglomeração. Não podemos evitar que os outros se aglomerem mas, se não sairmos de casa, evitaremos os efeitos potencialmente nocivos desse comportamento, pelo menos com relação a nós mesmos e aos nossos. Quem não sair de casa (dentre aqueles de nós que têm a sorte de poder trabalhar em casa e aqueles que têm o azar de morar no trabalho) nunca verá ninguém se aglomerar porque nunca será parte da aglomeração. Faça, portanto, como eu: saia apenas para o imprescindível, como, por exemplo, para comprar o pão ou para tomar um chopinho com os amigos, que ninguém é de ferro…

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