Como não procrastinar

A imagem de Santo Expedito é conhecida por muitos: um soldado romano, segurando em na mão direita uma cruz sobre a qual está escrita a palavra “hodie”, na mão esquerda uma palma (símbolo cristão do martírio, pois, segundo uma crença popular, a palmeira frutifica pouco antes de morrer) e pisando sobre um corvo negro que diz “cras”. Segundo se conta, o demônio queria impedir que Expedito, um centurião romano, se convertesse ao cristianismo e, para fazê-lo, assumiu a forma de um corvo. Sob essa forma, ele tentou o romano dizendo “cras”. Cras é o ruído que os corvos fazem, mas é também amanhãem latim. O santo, então, decidido a não adiar sua conversão, diz: “Cras non, hodie” (amanhã não, hoje), o que faz dele o padroeiro das causas urgentes. Procrastinar: deixar para amanhã. Continuar lendo Como não procrastinar

Como amar alguém?

A psicanalista Melanie Klein disse certa vez que são os delírios dos pais que formam a personalidade dos filhos. O pai olha para a filhinha recém-nascida no berço e diz: “Que gracinha! Vai ser juíza! Vai ser médica! Vai ser astronauta! Vai ser cientista! Vai ser presidente da República!” Nenhum pai olha para seu filho no berço e diz: “Que gracinha! Vai ser repositor de gôndola de supermercado! Vai ser operador de pare-e-siga!” Por favor, entenda corretamente meu ponto. Acho que ser repositor de gôndola de supermercado e operador de pare-e-siga são profissões tão dignas quanto médico e cientista, mas não acredito que algum pai deseje isso para o filho, a não ser que esteja em condições piores do que quem, empregado, exerce uma das duas profissões. Não é um projeto de vida ter um filho repositor de gôndola. É um trabalho árduo, repetitivo, com quase nenhuma interação social, monótono, que não torna a vida de ninguém mais completa, que não dá nenhuma satisfação em se fazer. Ao contrário, nós, pais, gastamos fortunas para garantir a nossos filhos escolas melhores que as que tivemos (não importa se é uma escola bilíngue nos Estados Unidos ou simplesmente uma escola pública municipal em uma comunidade violenta: sempre tentamos fornecer a nossos filhos experiências educacionais que achamos ser melhores do que aquelas que tivemos, na ilusão que nossa experiência limitada é um bom critério para escolher o que é melhor para os filhos).

É exatamente isso que faz com que amemos tanto os nossos filhos: investimos dinheiro, forças, tempo e, sobretudo, energia emocional neles, para que tenham uma vida melhor do que a nossa.

Há um filme antigo, uma comédia dos anos sessentas, chamada If a Man Answers(Se o marido atender…),com Sandra Dee e Bob Darin. Era uma vez uma garota, Chantal, filha de Richard e Germaine, família recém-mudada de Boston para Nova Iorque, onde a jovem conhece Eugene, com quem acaba se casando. O problema é que Eugene é fotógrafo, trabalha para calendários e vive rodeado por mulheres que são seus modelos. Para piorar tudo, o estúdio do rapaz é no próprio apartamento do jovem casal. As coisas não vão nada bem para eles, e Chantal resolve procurar sua mãe, Germaine, uma francesa que laçara Richard quando este visitou Paris, há muitos anos atrás. Germaine diz que sabe como resolver o problema, e que ela mesma passou por um problema semelhante com Richard quando se casaram. Ela descobriu um livro que ajudou muito a melhorar a relação deles. Chantal pergunta-lhe que livro é esse e Germaine responde que só revelaria se a filha prometesse nem rir nem revelar a ninguém que livro era aquele. Quando Chantal promete seu sigilo, Germaine vai até a estante, toma um livro e entrega à jovem: Como adestrar seu cão. “Como assim, mamãe?”, pergunta a garota, incrédula. “Exatamente assim, minha filha”, responde Germaine, “faça exatamente como o livro estiver falando. Apenas substitua o cachorro pelo seu marido. Aqui no livro diz que quando seu cachorro fizer algo certo, que você está se esforçando para ensinar-lhe a fazer, dê uma coçadinha atrás de sua orelha para recompensá-lo. E que, quando for sair com seu cachorro, ele vai tentar puxar você para ir aonde quiser. A princípio deixe ele pensar que ele conduz você, mas aos poucos vá diminuindo a guia, aproximando o cão para junto de você sem que ele perceba. Faça o mesmo com seu marido: quando saírem para fazer compras, deixe ele leva-la aonde ele quiser. Aos poucos, sem ele perceber, vá tomando conta da situação”. Chantal faz tudo o que o livro lhe pede para fazer, e tudo vai dando certo. Cada vez a relação entre eles é melhor, até que Eugene descobre que Chantal estava usando um livro de adestramento de cães para moldar o comportamento dele. Os dois, então, têm sua relação estremecida. Chantal procura sua mãe pedindo por novos conselhos, e a sábia Germaine (que realmente sabe tudo sobre o amor) lhe pergunta: “Minha filha, o que você acha que você estava fazendo?” Chantal responde: “Adestrando meu marido!” Germaine responde: “Não, minha filha, você não entendeu nada. Você não estava adestrando seu marido. Você estava seadestrando. Você estava se ensinando a recompensá-lo quando ele fazia algo que você apreciava! Você estava se ensinando que ele também precisa decidir aonde leva-la. Mas eu tenho uma solução para seu problema: consiga um amante. Eu mesmo fiz isso quando seu pai e eu tivemos problemas. Meu amante era um homem maravilhoso: Robert Swan!” Chantal grita: “Mamãe! Que horror!”, e Germaine responde “Não, minha filha, não era um amante de verdade. Era um amante imaginário. E, no fundo, seu pai também sabia que ele era imaginário. Mas como ele tinha um concorrente, ele se empenhava, fazia o máximo para me conquistar….” (Não se preocupe, há muita estória além disso, e tenho certeza que você vai adorar o filme).

Qual é a lição de Germaine? Quanto mais ela investia no marido, adestrando-o (ou seja, adestrando a si mesma), mais ela o amava. Quanto mais o marido investia em Germaine, mais ele a amava.

É interessante que essa também é uma lição do Apóstolo Paulo, na Bíblia. Pode ser que você pense que as ideais de Paulo estão cheias de pressupostos religiosos e de preconceitos que você não compartilha. Ou pode ser que que você pense que dificilmente alguém que foi solteiro e provavelmente virgem durante toda sua vida pode ensinar algo em termos do amor erótico, ou romântico. Mas eu vou pedir para você estar atento para o fato de que em todo lugar há sabedoria. Como diz um amigo querido, o professor Jacyntho Lins Brandão, “o mundo está cheio de sinais, e a sabedoria consiste em saber interpretá-los”. Paulo diz: quer uma mulher fiel? Ame-a primeiro (Epístola aos Efésios, 5:25). Amor responde a amor…

Pós-escrito: Amar alguém, investir em uma relação, não é garantia que a pessoa irá amá-lo também, que ela investirá na relação. Mas, se você vê que os investimentos que está fazendo não dão retorno, por que continua investindo?

POR QUE É TÃO DIFÍCIL DAR O PRIMEIRO PASSO?

Mudar tudo, deixar uma vida para trás, sonhar com um futuro diferente… Você se preparou da melhor maneira para isso: estudou tudo, preparou-se física e psicologicamente, reuniu os meios necessários, mas, e se não der certo? E se você perder o que tem hoje? E se você me arrepender? Todos nós queremos perseguir nossos sonhos, mas, muitas vezes, dar o primeiro passo é o mais difícil.

Boa parte de nosso medo vem da percepção de que saímos de uma situação conhecida, que está sob nosso controle, para uma situação desconhecida, que nos controla. E estar no controle de uma situação é bom, não controlar uma situação é mau. Essa percepção é fruto de uma ilusão. Paradoxalmente, evitamos a mudança quando não percebemos que nossa situação atual não depende apenas de nós, mas também de forças que nos são alheias.

Suponha que você tenha um trabalho que lhe garanta estabilidade. Não é um trabalho que você ame, mas também não é algo que lhe traga sofrimento. A empresa é sólida, você está há muito tempo no cargo… Você sempre sonhou em ter o seu negócio, montar um bar com aquela ideia diferente, por exemplo, e a empresa em que você trabalha possui um Plano de Demissão Voluntária (PDV), que não pagaria o mesmo que você receberia se fosse demitido, mas que seria o suficiente para você realizar o projeto. O problema é que o novo é sempre incerto: e se o bar consumir mais do que você tem disponível antes de se tornar viável? E se não der certo, e ninguém for a seu bar? E se a concorrência tornar impossível seu sucesso? Você então continua em seu velho trabalho, e troca seu sonho por sua segurança, pelo menos momentaneamente. O que você não sabe é que a empresa em que trabalha está em péssima situação financeira, e não tem como honrar todas as suas dívidas. O PDV foi criado para que a empresa tentasse diminuir seus gastos com pessoal na esperança de poder sobreviver à crise por que passa: um ano depois, você chegará a seu trabalho e ele estará fechado, sem que a empresa tenha como arcar com os débitos trabalhistas. Você ficou sem seu emprego e sem sua segurança. Você também ficou sem seus sonhos.

Em que foi que você errou? Creio que há dois fatores que determinam escolhas como essas, intimamente ligados um ao outro. O primeiro é a ilusão de que podemos controlar nosso futuro. Seria verdade, se nosso futuro dependesse apenas de nossas escolhas e de nossas forças. Ele depende também de contingências naturais, sociais e, na maioria das vezes, também das escolhas e das forças dos outros. O segundo fator é que acreditamos que conhecemos suficientemente as circunstâncias (se quiser: o Destino) e por isso podemos nos preparar para contornar problemas futuros (o nome disso é “Plano B”). Também não é verdade: as circunstâncias muitas vezes são mais complexas do que podemos imaginar, e não as dominamos corretamente.

Sou uma pessoa que leva em conta as possibilidades de as circunstâncias se alterarem tanto a ponto de frustrarem meus planos, e por isso tento me prevenir contra as intempéries da vida. Mas reconheço que o sucesso dessa atitude, em grande parte, não depende apenas de mim. Vou dar um exemplo: há dez anos, minha mulher e eu decidimos mudar de apartamento. Uma amiga nos recomendou uma construtora (ela mesma havia comprado seu apartamento dessa empresa) e especialmente uma vendedora. Procuramos a vendedora e nos foi proposta a compra de uma apartamento na planta. Ele atenderia nossas necessidades, o preço era bom e podíamos pagar pelo apartamento. Foi então que o meu daimon  disse-me: e se a construtora falir? Saímos dali e conversamos com um contador (um profissional com quem a maioria de nós nunca pensa em conversar quando as decisões a tomar envolvem dinheiro). Ele se propôs a analisar os balanços da empresa para verificar sua saúde financeira. Pedimos os balancetes à vendedora, que achou muito estranho aquilo mas, como o que ela queria era vender, conseguiu-os para nós. O contador não precisou de muito tempo para analisa-los. No momento em que apresentamos o documento, ele já sugeriu que não comprássemos o imóvel. Ele, com seu conhecimento técnico, percebeu algo que eu não tinha condições de perceber: Suponha que a empresa tenha vendido todas as unidades do edifício Alfa. Ela então vendia as unidades do edifício Beta e com o dinheiro dessa venda construía o edifício Alfa. Depois ela vendia as unidades do apartamento Gama para construir os apartamentos do edifício Beta, e assim por diante. Em outros termos, era uma pirâmide financeira! Se ela não vendesse os apartamentos do edifício Gama, não teria como entregar o edifício Beta a seus compradores! Na época, eu estava lendo muito sobre investimentos em ações, e sabia que o segredo de Warren Buffet, o maior investidor do mundo, era uma análise fundamentalista das empresas em que investia. Ele e seus técnicos passavam grande parte de seu tempo analisando os balanços de empresas que não eram dele para decidir em quais investir, quais tinham condições de se valorizar, quais eram canoas furadas. Por isso procurei o contador. E o contador estava certo: a construtora foi à falência e o prédio no qual compraríamos nosso apartamento nunca foi construído.

A primeira coisa que me impressiona nessa história é: como a vendedora nunca percebeu que havia algo de errado com o funcionamento da empresa? Ela estava lá dentro! Ela via as unidades do edifício Beta serem todas vendidas antes que a empresa construísse o edifício Alfa! Creio que isso ocorreu porque a sensação de segurança de alguma forma nos cega. Acreditamos que as coisas não mudam ou, se mudam, isso ocorre muito lentamente. Há algo mais impressionante ainda nessa história: como é que eu, em uma semana, percebi o que ela não percebeu por muito tempo? Você vai dizer que foi minha precaução e meu conhecimento. Eu, ao contrário, vou dizer que foi sorte: se não estivesse lendo sobre investimentos em ações, provavelmente não teria tido a ideia de solicitar o apoio de um contador. É claro que que foi importante a minha capacidade de transferir conhecimento de uma questão (compra de ações) para outra (compra de um imóvel), mas é provável que também essa capacidade tenha se formado em mim por algum acaso que desconheço.

Essa história parece querer desencorajar você a mudar sua vida, mas o que ela quer fazer é exatamente o oposto: não desconfie, mas confie nas circunstâncias (no Destino ou, se preferir, em Deus) quando quiser mudar de vida, tenha-as como aliado. É claro que tudo pode dar errado se você mudar, mas tudo pode dar errado também se você não mudar! Isso não exime você de preparar-se para o futuro, e nada nos prepara tanto para o futuro quanto conhecimento sobre as circunstâncias (no meu caso, foi um pouco de conhecimento sobre análise fundamentalista, não o suficiente para interpretar o balanço da empresa, mas o suficiente para saber que isso precisava ser feito antes que eu tomasse aquela decisão, que impediu um desastre financeiro em minha vida). É preciso que esse conhecimento seja um estímulo para você ousar realizar o seu sonho, e não para que você evite realiza-lo.

Muitas vezes (não sempre), dar o primeiro passo é tão difícil porque acreditamos que o Destino é nosso inimigo. Quem ousa pode descobrir que o Destino pode ser também nosso amigo. Aqueles que pensam que tudo vai dar sempre errado não têm porque tentar fazer tudo diferente.

Família, urgências e turbulências

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Em seu livro, Cortella apresenta bons conselhos (ainda que sem muita profundidade), que acabarão revelando uma certa incoerência. O autor trata da dificuldade de criar filhos em um mundo tão veloz como o atual, que tira nosso tempo de convivermos em famílias, em que falta um modelo sobre como formar adequadamente jovens e crianças. Isso gera angústia nos pais, uma sensação de fracasso Continuar lendo Família, urgências e turbulências

The Meaning of Life: A Very Short Introduction

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Em seu livro, Terry Eagleton, professor de Literatura na Universidade de Manchester, discute qual é o significado da vida. Será que a pergunta pelo “significado” da vida já não indica a impossibilidade linguistica de respondê-la (porque o significado último só pode ser dado de fora de um sistema, e não podemos sair para fora do sistema linguístico para dizer qual é o significado do significado). O fato é que a humanidade Continuar lendo The Meaning of Life: A Very Short Introduction