A vida de um professor se prolonga na vida de seus alunos. Seus vícios tornam-se os vícios de seus alunos, e consola-me crer que também suas virtudes, se possuir alguma, tornam-se as virtudes de seus alunos. Prudência, mas também fortaleza, magnanimidade, mas também justiça são virtudes que a convivência propicia oportunidades para seu desenvolvimento conjunto por alunos e professores, virtudes essenciais nas profissões jurídicas e no exercício de cargos públicos.

Aos olhos dos homens modernos, essas virtudes parecem desconexas, por vezes até antagônicas. A prudência parece afastar a fortaleza, e a magnanimidade parece afastar a justiça, mas a teoria clássica das virtudes políticas as compreende como harmônicas e sinergéticas. É verdade que a prudência exige ponderação, que nos toma tempo, e é verdade que a fortaleza exige posicionar-se frente a conflitos do modo mais rápido possível, antes que as consequências sejam incontroláveis. É verdade que que a magnanimidade exige relevar  ofensas, e é verdade que a justiça exige restabelecer a igualdade, cumprir a lei e, na maioria das vezes, decidir o caso entre partidos diversos. No entanto, a prudência, como a capacidade de escolher o único comportamento adequado a uma ação, exige algumas vezes celeridade, e a magnanimidade exige abrir mão de vantagens em nome do bem comum. Quando desarticuladas umas das outras, as virtudes públicas se transformam em meras habilidades técnicas a serviço de interesses particulares, instrumentalizadas pela lógica da justificação da escolha dos meios pelos fins, que não visa ao bem público, mas apenas ao interesse de um partido. Talvez seja inútil se buscar um meio termo entre essas virtudes, mas podemos ao menos alternar entre elas para escolher de modo adequado ao que as circunstâncias exigem de nós.

Minas Gerais sempre reivindicou a unidade das virtudes em seu modo de fazer política. Diz-se que os mineiros tendem mais à prudência que à fortaleza, mais à magnanimidade do que à justiça, mas só se pode dizer isso se esquecendo da fortaleza cívica e do senso de justiça exigidos de Tancredo Neves no caminho da redemocratização, e este é apenas um exemplo. O que Minas Gerais exige verdadeiramente é que seus filhos se posicionem frente aos desafios que a história nos impõe, ainda que seja preciso mudar de lado, não por interesses, mas por princípios. 

Sendo professor há mais de vinte e cinco anos, dei aula para milhares de alunos, alguns quase anônimos, advogados, juízes, serventuários da justiça; outros, figuras públicas que sempre tive certeza que galgariam as mais altas posições na carreira política, mas que pensava que não viveria o suficiente para encher o peito de orgulho e dizer: foi meu aluno! Quis a fortuna que eu pudesse ter ocasião para dizer do orgulho que sinto de meu ex-aluno, o senador Rodrigo Pacheco, que se formou na PUC Minas há mais de vinte anos. Desejo ao senador apenas sucesso, pois sei que isso é essencial para nosso sucesso como nação, mas também porque um professor sempre torce pelos seus alunos. Espero que ele saiba sempre conciliar a prudência e a fortaleza, a magnanimidade e a justiça, e posicionar-se do lado certo da história, colocando sempre o bem público acima de interesses de grupos e pessoas porque, se não o fizer, ele será cobrado, não por mim, mas pela história, juíza implacável e forte, ainda que prudente e magnânima. Sobretudo, desejo que ele não seja cobrado por se associar às pessoas que estão do lado errado da história porque, quem o faz, acaba como a rã da fábula erroneamente atribuída a Esopo[1].


[1] Certa vez um escorpião pediu para ser transportado por uma rã à outra marem do rio. Ela temeu fazê-lo, mas acabou cedendo às promessas de que ele nunca atacaria a rã. No meio da travessia do rio, a rã sente uma dor enorme, e diz: O que você fez, escorpião? Agora você me envenenou, e vamos morrer ambos, pois não posso mais nadar. E o escorpião respondeu que essa era a natureza dele, e que a rã deveria saber isso.

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