Perguntaram recentemente ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, se ele tomaria cloroquina se seu médico lhe prescrevesse como tratamento para um eventual caso de Convid-19. Ele declarou literalmente que “quando se fala de protocolo de tratamento com cloroquina, ivermectina, há médicos que receitam isso. Outro dia me perguntaram: Se você contrair Covid-19, você vai tomar isso? Eu vou tomar só se o médico me receitar”.

Segundo a Associação Médica Brasileira (em um estudo cujos parâmetros metodológicos não foram divulgados), 34,7% dos médicos entrevistados prescreveriam cloroquina, e 41,4% prescreveriam ivermectina para tratamento da Covid-19. É uma parcela muito grande dos médicos brasileiros, o que poderia indicar que a classe está dividida (argumento implícito nas frequentes manifestações de outra autoridade brasileira). Diante disso, há uma pergunta feita desde a Antiguidade e que parece ainda atual: se você adoecer, como escolherá o médico que o tratará?

Suponha que seu problema não seja escolher um médico, mas escolher um motorista para seu carro. É muito provável que você o leve para conduzi-lo pelas ruas que você geralmente percorre, que peça-lhe para estacionar o carro, que preste atenção se ele é atento e demonstra ser prudente no trânsito. É claro que isso não é suficiente, é provável que você também queira receber referências de outros empregadores para decidir-se por contratá-lo ou não, mas avaliar sua maneira de conduzir é parte importante, se não a decisiva, do processo de escolher e contratar um motorista. Isso pode nos levar a pensar que nossas opiniões são suficientes para escolhermos entre dois profissionais. Mas suponha que você deva escolher não um motorista para seu carro, mas um piloto para seu avião. E suponha que você não saiba como pilotar um avião. Você será capaz de escolher por si só o melhor piloto de avião? 

Só escolhemos bem naqueles campos que conhecemos. A diferença entre escolher um motorista para seu carro e o piloto para seu avião é que você provavelmente sabe como conduzir um carro com segurança, e por isso pode avaliar a competência técnica do motorista. Por exemplo, eu sei que, se o motorista, sob uma condição de estresse, se esquece de pisar na embreagem antes de trocar de marcha, ele não será um bom motorista (ou porque não domina a técnica de conduzir um veículo, ou porque, sob pressão, ele não a utiliza). Mas, no caso do piloto, será que eu tenho como avaliar se ele deveria ter apertado o botãozinho verde antes de puxar a alavanca amarela? 

Essa questão foi abordada por Aristóteles em um de seus livros, a Ética a Nicômaco. Será que qualquer pessoa pode escolher um flautista para tornar-se insrumentista de uma orquestra profissional? Provavelmente não. Posso avaliar se o som produzido parece bonito, ou se gosto da música, mas não posso avaliar o grau de dificuldade de execução da peça para avaliar sua competência (ele poderia escolher uma peça simples, mas impressionante por sua sonoridade ou familiaridade, e seria escolhido em detrimento de um flautista que, por exemplo, escolhesse tocar a Densidade 21,5 de Varèse). Apenas músicos podem avaliar apropriadamente a qualidade técnica de outros músicos. Posso achar bonito o que um músico toca e não gostar do que outro toca, mas isso provavelmente diz mais sobre mim mesmo do que sobre o músico. Como, então, escolher um médico?

Assim como somente quem sabe pilotar aviões pode dizer quem é um bom piloto, e assim como somente quem sabe tocar flautas pode indicar quem é um bom flautista, da mesma forma somente quem é um bom médico pode dizer quem é um bom médico. É claro que ser competente do ponto de vista clínico talvez não seja o único critério para se escolher um médico em condições normais. É preciso que ele seja disponível, e também é preferível que ele seja simpático. Mas não nos guiamos primariamente por esses critérios para escolher médicos (do contrário, não haveria muita diferença em escolher entre um médico, um psicólogo, um padre e até um amigo). Partir deles, e não do critério técnico, pode nos levar a escolhermos mal. E todo mundo preferiria o Doutor House a um charlatão simpático, se sua vida estivesse em jogo.

Médicos precisam possuir conhecimento técnico e habilidade para identificar a doença e produzir sua cura. Conhecimento técnico é o critério principal que devemos levar em conta na hora de escolhê-los. O filósofo Platão disse que conhecimento é uma opinião verdadeira e justificada. Suponha que alguém prescreva leite na alimentação para tratar  osteoporose, porque acredita que, sendo os ossos “brancos” e sendo o leite também “branco”, eles se fortalecem reciprocamente. A prescrição não se baseia em conhecimento por não ser fundamentada (pois poderia levar alguém a também prescrever gelo para osteoporose, já que ossos e gelo são brancos). Para dizermos que alguém possui um conhecimento sobre algo, essa pessoa precisa demonstrar não apenas que existe um nexo causal entre dois eventos, mas também por quê existe esse nexo causal. 

Dificilmente nós poderíamos avaliar se um médico possui conhecimento, e por isso precisamos confiar nos próprios médicos quando se trata de escolher um médico para nós. Como nem sempre podemos perguntar a outros médicos se os médicos que escolhemos são competentes, precisamos confiar nas diretrizes que corporações de médicos emitem sobre o comportamento dos médicos para avalia-los. A medicina tem se baseado cada vez mais em evidências científicas, sobretudo em termos de avaliação da eficácia de um determinado tratamento para uma determinada doença. Pesquisas controladas e estudos de revisão permitem determinar de modo cada vez mais preciso a eficácia dos tratamentos prescritos. E, como aponta a própria AMB (repetindo pesquisas realizadas em todo o mundo), a cloroquina e a ivermectina não são eficazes no tratamento da COVID-19 e, sobretudo no caso da primeira, envolvem riscos reais para a saúde das pessoas. Opiniões contrárias não são nem verdadeiras, nem fundamentadas, e por isso são meras opiniões, e não conhecimento.

Minha resposta à pergunta que foi formulada ao Senador Rodrigo Pacheco, portanto, teria sido diferente. Se eu pudesse escolher o médico, dificilmente seria um que não se orientasse pela medicina baseada em evidências. Dificilmente seria uma que prescrevesse cloroquina ou ivermectina para Covid-19. E, se eu estiver correto, isso significa que o fato de 34,7% dos médicos pensar em prescrever cloroquina para COVID-19 não é sinal de que haja uma divergência no meio médico sobre que tratamento deveria ser empregado, mas apenas que muitos médicos brasileiros não estão bem preparados para o exercício de sua profissão.


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