A palavra “ideograma” descreve muito mal os caracteres chineses. Apenas uma parte pequena deles representam ideias. Há também representação de imagens e de sons em chinês, e por isso a expressão sinograma, ou mesmo caractere – zi – é mais adequada para descrevê-los. 

Em seu livro, Escrita chinesaViviane Alleton introduz os principais conceitos por trás do desenvolvimento e progressivo domínio popular do sistema de escrita na China (dizer que existe um sistema de escrita significa que o signo empregado por quem o escreveu pode ser decodificado com o mesmo sentido pelo leitor). Basicamente, um caractere corresponde a uma sílaba (ainda que haja caracteres que não correspondem a nenhuma sílaba propriamente, mas que tornam inteligível o sentido de uma sílaba, e sílabas compostas de mais de um caractere). Por exemplo, o caractere para ela (que se pronuncia tá, como também se pronuncia tá o caractere para ele), vemos dois sinogramas que foram aglutinados: um que designa mulher e um que designa a 3ª pessoa do singular. A diferença entre “ela” e “ele” só existe explicitamente na língua escrita (e, na língua falada, apenas o contexto permite diferenciá-los).

São inúmeros caracteres que correspondem a inúmeras sílabas e inúmeros significados, que às vezes coincidem, às vezes não (por exemplo, a sílaba “ma” pode ser mãe, cavalo ou partícula interrogativa, apesar de haver variação no tom, já que o chinês é uma língua tonal, ou seja, em que a entonação com que se pronuncia uma sílaba altera seu sentido). Significados distintos podem ser atribuídos a sílabas idênticas (e, novamente, somente a escrita ou o contexto permite identificar o sentido preciso).

Muitas palavras são compostas de mais de um caractere (e, portanto, de mais de uma sílaba, ainda que, como disse acima, há casos em que, por composição, dois caracteres correspondem a apenas uma sílaba).

Uma série de regras para se traçar cada caractere e, em especial, seus componentes, foram estabelecidas, tal como a direção com que cada elemento é traçado e o número de elementos, como traços e pontos, que permite identifica-los e inclusive dicionarizá-los *um dicionário reúne caracteres formados por um elementos, depois por dois elementos, e assim sucessivamente).

Uma das características da escrita chinesa (ligada a seu desenvolvimento desde seu surgimento em artefatos divinatórios milhares de anos antes de Cristo) foi o surgimento de vários estilos de escrita, dos quais o mais usual é o kaishu (geralmente o que consta dos dicionários) e o de mais difícil leitura (pelos chineses) é o caoshu (um tipo de caligrafia em que geralmente um único traço forma todo o caractere, o que exige estilização e inclusive supressão de alguns de seus elementos). O número de caracteres (um dicionário padrão possui 40.000 caracteres) e os estilos de escrita diversos (oito, pelo menos) levaram ao surgimento de uma classe administrativa de escribas, os mandarins, altamente treinados e testados em caligrafia.

No século XX, sob a Revolução Cultural de Mao Dze Dong, houve uma simplificação 515 caracteres tradicionais e, indiretamente, de mais uns 1.200 caracteres, o que levou a um aumento da capacidade de leitura pelo povo e a uma diferenciação em relação a Hong Kong e Taiwan (que mantiveram a escrita tradicional, mais complexa).

Os chineses desenvolveram um sistema de escrita altamente sofisticado, com o desenvolvimento de papel, pincéis, nanquim, pedras-tinteiro e, no século XV (ainda que inventada no século XI) , da imprensa de tipos móveis. Os caracteres chineses foram usados pelos coreanos e vietnamitas (que praticamente não os utilizam mais, desenvolvendo os coreanos um alfabeto próprio e utilizando os vietnamitas o alfabeto latino) e japoneses ainda os utilizam largamente. Hoje, o sistema UNICODE permite a utilização de um teclado comum de computador para se escrever a maioria dos caracteres. O desenvolvimento do pinyin (transcrição fonética latinizada) depois de Revolução Cultural permitiu um acesso mais fácil ao início letramento na China, bem como a aprendizagem mais fácil do chinês por outros povos. Um chinês que estudou bastante sabe em média 8.000 caracteres, e de 2.000 a 3.000 são necessários para a boa leitura de um jornal.

O livro de Alleton traz essas e muitas outras informações. Apesar de introdutório, muito dele é de difícil visualização (ou compreensão) para quem não possui rudimentos de língua chinesa (o mesmo pode ser dito do que eu escrevi acima, por falta de exemplos, que existem no livro, mas são escassos e sutis demais para quem não conhece nada da língua). É um livro útil para quem está começando a estudar a língua  e já se familiarizou com algumas de suas estruturas (digamos, alguém que tenha concluído o Básico I tirará maior proveito do livro). Atribuo nota 3 em 5.

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