Mercúrio com o Caduceu (Casa dei Vetti, Pompeia)

Um dos deuses mais importantes do mundo grego é Hermes (Mercúrio, para os romanos), deus que, por possuir sandálias aladas, pode voar muito velozmente, e por isso foi escolhido para a tarefa de transportar a mensagem entre os deuses, ou entre os deuses e os mortais (a palavra Hermenêutica vem de Hermes, e significa o trabalho de decifrar as mensagens dos deuses). Porque era um deus viajante, e porque era responsável por um tipo de “comércio” entre os homens e os deuses (a comunicação), Hermes se tornou protetor dos comerciantes. Além das sandálias aladas, seu símbolo era um cajado curto, dotado de asas, no qual duas serpentes se entrelaçavam, o caduceu (kerúkeion, em grego), que lhe foi presenteado por seu meio irmão Apolo (também associado à uma serpente, a píton, que ele derrotou, tornando-se o deus de Delfos após essa batalha). O mito diz que, certa vez, Hermes viu duas serpentes em combate mortal, e as separou com seu cajado. Elas então se incorporaram ao cajado, tornando-se um símbolo da paz (necessária para o comércio), mas esse cajado não é o símbolo da medicina. O que vemos bordado nos jalecos da maioria dos médicos não é o símbolo da medicina, mas do comércio. Não se sabe ao certo como essa confusão ocorreu, ainda no Renascimento, mas é provável que haja alguns traços comuns entre o símbolo da medicina e do comércio[1]. Mas qual é o símbolo da medicina?

Asclépio e seu cajado (Museu do Teatro de Epidauro)

Na Grécia Antiga, havia um homem (que com o passar do tempo vai se tornando um semideus e, já no século V a.C., um deus) chamado Asclépio, que era um médico. O seu principal atributo era um cajado longo, no qual uma única serpente se enroscava (veja que, no brasão e na bandeira da OMS, é esse cajado, e não o caduceu, que está representado). Segundo o mito, enquanto visitava um paciente, uma serpente se enroscou em seu cajado e foi impossível removê-la de lá. Com o tempo, Asclépio se tornou o deus da medicina (Sócrates, no diálogo Fédon, de Platão, pede ironicamente a seus discípulos para sacrificarem um galo a Asclépio, depois de beber o veneno que o mataria, a cicuta). Não sabemos ao certo a origem do símbolo, mas Hebreus e Caldeus também associavam as serpentes a poderes curativos. Para alguns, a serpente, por trocar sua pele, é um símbolo da renovação, do rejuvenescimento e da cura. Por ser um animal que também pode ser peçonhento, e assim mortífero, a serpente representa também a ideia de phármakon, droga (uma droga pode curar, na posologia correta, ser ineficaz, se subministrada, ou matar, em uma superdose). O movimento ascendente da serpente no cajado representa o impulso vital, que se recupera com a medicina. Outra ideia é que a serpente represente a doença e o cajado, a cura. Asclépio, descendente de Apolo (também ligado à medicina) tem uma vasta prole, na qual se inscrevem as deusas ligadas à cura, dentre as quais se destacam Hygina (a Saúde, que deu origem à palavra higiene) e Panaceia (o remédio de todos os males).

Bandeira da Organização Mundial da Saúde – OMS

Quando dizemos que os gregos inventaram a medicina, não nos referirmos a Asclépio e às curas mágicas, mas a um homem chamado Hipócrates de Kós (que teria vivido entre 460 e 370 a.C.), fundador da escola hipocrática. Na sua época, havia muitas escolas de medicina (não no sentido de locais onde se formavam médicos, mas de tradições de métodos de cura). A revolução operada por Hipócrates tem a ver com a descoberta da etiologia (etiologia, estudo da causa, vem da palavra grega aitia, que quer dizer origem). Pode ser que outras escolas já tivessem descoberto a etiologia, mas Hipócrates é o primeiro a fazer dela o fundamento da cura e o primeiro a registra-la em seus tratados. E a etiologia hipocrática se relaciona a um procedimento que antecede, em muitos séculos, o método científico: observação, construção de uma hipótese explicativa e testagem da hipótese. Vários exemplos se encontram nos tratados hipocráticos, como, por exemplo, quando diz que favas (e outros tipos de leguminosas, como o feijão) causam gases intestinais. Portanto, se alguém sofre com gazes intestinais, deve-se suprimir a ingestão de favas. 

Hipócrates

Muito do que Hipócrates descobriu continua válido, e algumas descobertas são cada vez mais comprovadas pela medicina (por exemplo, a afirmação hipocrática de que não há doenças, mas doentes, que precisam ser tratados de modo individualizado), mas, de todos os textos de Hipócrates, o mais famoso e atual é seu Juramento. Quando alguém começava a estudar medicina com o mestre de Kós, precisava proferir um juramento religioso, que, com algumas modificações e alterações, continua sendo proferido até hoje por aqueles que entram no exercício da medicina, em sua formatura, e cujo princípio fundamental foi registrado em latim como Primun non nocere: Em primeiro lugar, não produzir um mal (ao paciente).

A versão mais aceita do texto diz assim:

“Juro por Apolo, médico, e por Asclépio, Hygina e Panaceia, e por todos os deuses e deusas, tomando-os por minhas testemunhas, que cumprirei, com toda a minha habilidade e discernimento, o seguinte juramento:

Considerarei meu professor nesta arte igual a meus pais, e farei ele participar de meus bens materiais; se ele tiver necessidade de dinheiro, partilharei o meu com ele; considerarei sua família como a meus próprios irmãos, e ensinar-lhes-ei esta arte, se quiserem aprendê-la, sem cobrar por isso; ensiná-la-ei por preceitos, instrução oral e outros meios de ensino a meus filhos, aos filhos de meu professor e a alunos que aderirem por contrato e que tenham tomado este mesmo juramento, mas a ninguém mais.

Usarei regimes e dietas para benefício de meus pacientes, de acordo com minha melhor habilidade e julgamento, e não produzirei nenhum mal e não praticarei nenhuma injustiça para meus pacientes. Também não administrarei veneno a qualquer pessoa, mesmo que me peçam para fazê-lo, nem sugerirei essa prática. Também não administrarei método abortivo a nenhuma mulher. E manterei puras e santas minha vida e minha arte. A princípio não realizarei cirurgias, mesmo em pessoas com cálculos renais, mas permitirei que os cirurgiões façam isso em condições especiais.

Em todas as casas que entrar, eu o farei para ajudar os enfermos, e abster-me-ei de todo malefício e de todo prejuízo intencional, especialmente de abusar de corpos de homens ou mulheres, livres ou escravos. E o que vir ou ouvir no curso do exercício de minha profissão, ou mesmo fora do exercício de minha profissão, no intercurso com outros homens, mesmo que seja algo punível, nunca divulgarei, considerando tais coisas como segredos religiosos.

Se eu cumprir esse juramento, e não o quebrar, que eu possa gozar para sempre de boa reputação entre os homens por minha vida e minha arte; mas se eu quebrá-lo e trair a mim mesmo, que o oposto ocorra comigo”. 

O que é mais interessante, quando analisamos este juramento, é perceber nele toda a medicina moderna contida em não mais que meia página:

  • A medicina é, sim, corporativista, no sentido de que os médicos, por juramento, devem-se o amparo mútuo, o que na Grécia significava, antes de mais nada,  apoio financeiro e determinação de quem poderia aprender a ars curandi. Hoje, esse princípio regula a relação entre os médicos, e por isso, é falta grave, sujeita à disciplina, o fato de um médico desprezar ou desacreditar outro médico (não no sentido de que devem encobrir uns os erros dos outros, mas de que devem respeitar outros colegas e, inclusive, as opções de tratamento tomadas por seus iguais);
  • Sempre se cobrou pelo ensino da medicina (“por contrato”), mas também sempre houve gratuidade (bolsas) para aqueles que queriam aprender a medicina, e essa era transmitida por meio de aulas, demonstrações (Hipócrates dissecava cadáveres com seus discípulos) e práticas supervisionadas;
  • O princípio que rege a medicina é não fazer mal ao paciente, e não, necessariamente, fazer um bem ao paciente. Às vezes, a cura é impossível, e o médico deve apenas reduzir o sofrimento. Isso significa que o médico deve avaliar o custo-benefício de cada tratamento;
  • Como luta pela vida, o médico não pode praticar nem a morte de um paciente por meio de veneno, nem interromper uma gravidez (os dois pontos, a eutanásia e o aborto, são hoje muito polêmicos, e essa parte do juramento tende a desaparecer dos textos lidos pelos formando de medicina nos nossos dias; é preciso lembrar, no entanto, que tanto a eutanásia quanto o aborto eram práticas aceitas na sociedade grega, e o que Hipócrates exigia não é que elas não fossem praticadas, mas coerência, ou seja, que elas não fossem praticadas pelos médicos de sua escola, que juraram trabalhar apenas pela vida);
  • O bom médico recorre primeiro à clínica, e somente em condições excepcionais à cirurgia (você já deve ter ouvido um médico dizer que, antes de submeter alguém à cirurgia, iria tentar o “tratamento conservador”), mas às vezes isso é inevitável, e um bom médico deve reconhecer isso; Hipócrates, inclusive, descreveu cirurgias para cálculos renais, para abcessos renais e a trepanação (perfuração da caixa craniana para se aliviar a pressão, no caso de hidrocefalia), mas só permitia que os mais experientes realizassem esses procedimentos;
  • A ninguém é mais fácil usar do que lhe é revelado do que a um médico; também é muito fácil para ele abusar sexualmente de seus pacientes, ou usar dos segredos que lhe são revelados para chantagear e prejudicar os pacientes. Por isso, desde o início, a escola hipocrática exigia de seus aprendizes a estrita observância de um código de conduta que regulava não apenas a relação entre os médicos, mas desses com seus pacientes.

Esse pequeno texto, o Juramento de Hipócrates, é muito impressionante porque contem nele a síntese de toda a medicina: como deve ser ensinada e praticada, que tipo de recursos o médico deve utilizar e como deve ser sua conduta ética.

São Lucas

Finalmente, temos a figura de São Lucas, que escreveu o terceiro Evangelho da Bíblia e o livro de Atos dos Apóstolos. Sabemos que ele era médico, porque Paulo o chama pelo epíteto de “médico amado” na Carta aos Colossenses e porque a tradição da Igreja assim o considerou desde o início, mas há indícios de que ele fosse não um médico qualquer, mas um médico da escola hipocrática, por causa da maneira como descreve os doentes que se encontravam com Jesus, usando os termos médicos dessa escola específica. A tradição cristã também diz que ele era pintor, tendo pintado ícones da Virgem Maria e do Menino Jesus., além de Paulo e Pedro, e essas duas profissões fariam dele o padroeiro dos médicos e dos pintores (por isso o dia dos médicos é o dia 18 de outubro, dia da festa de São Lucas). Isso tudo faz com que seus atributos (ou seja, os símbolos usados para reconhece-lo na iconografia) sejam o cajado de Asclépio e os instrumentos médicos, um ícone com a Virgem Maria e o menino Jesus, um livro (o Evangelho e o Ato dos Apóstolos, que ele escreveu) e um touro ou novilho (o que também faz dele padroeiro dos açougueiros), muitas vezes alado (porque seu Evangelho se inicia por um sacrifício, e o boi era um dos animais usados pelos judeus para o sacrifício – o uso de um carneiro, mais comum, já fora apropriado pela iconografia de São João Batista e do próprio Jesus Cristo, daí a necessidade de se utilizar outro animal; como o livro de Apocalipse se refere a quatro seres viventes, um ser com rosto de homem, um leão, um touro e uma águia, eles vieram a simbolizar os evangelhos de Mateus, que se inicia pela geração humana de Jesus, Marcos, que se inicia com uma voz que clama do deserto, Lucas, que se inicia pelo ofício de Sacerdote de Zacarias no templo, realizando um sacrifício e João, que se inicia com a divindade do Verbo de Deus. 

São Lucas, Médico

É interessante que, de alguma forma, São Lucas, Hipócrates e Asclépio estejam ligados entre si e, mais interessante ainda, aos médicos de hoje. Com sua luta contra o sofrimento humano (não contra a morte, pois isso é impossível: ela só pode ser adiada), sua ética, seus recursos e mesmo com sua inspiração divina, os médicos são heróis, que merecem todo nosso respeito e toda nossa gratidão. Parabéns pelo seu dia!

(As imagens utilizadas nesta postagem provêm de Wikicommons, com a exceção do ícone ortodoxo, retirado de https://orthochristian.com/79946.html)


[1] https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2002001300014

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