Mudar tudo, deixar uma vida para trás, sonhar com um futuro diferente… Você se preparou da melhor maneira para isso: estudou tudo, preparou-se física e psicologicamente, reuniu os meios necessários, mas, e se não der certo? E se você perder o que tem hoje? E se você me arrepender? Todos nós queremos perseguir nossos sonhos, mas, muitas vezes, dar o primeiro passo é o mais difícil.

Boa parte de nosso medo vem da percepção de que saímos de uma situação conhecida, que está sob nosso controle, para uma situação desconhecida, que nos controla. E estar no controle de uma situação é bom, não controlar uma situação é mau. Essa percepção é fruto de uma ilusão. Paradoxalmente, evitamos a mudança quando não percebemos que nossa situação atual não depende apenas de nós, mas também de forças que nos são alheias.

Suponha que você tenha um trabalho que lhe garanta estabilidade. Não é um trabalho que você ame, mas também não é algo que lhe traga sofrimento. A empresa é sólida, você está há muito tempo no cargo… Você sempre sonhou em ter o seu negócio, montar um bar com aquela ideia diferente, por exemplo, e a empresa em que você trabalha possui um Plano de Demissão Voluntária (PDV), que não pagaria o mesmo que você receberia se fosse demitido, mas que seria o suficiente para você realizar o projeto. O problema é que o novo é sempre incerto: e se o bar consumir mais do que você tem disponível antes de se tornar viável? E se não der certo, e ninguém for a seu bar? E se a concorrência tornar impossível seu sucesso? Você então continua em seu velho trabalho, e troca seu sonho por sua segurança, pelo menos momentaneamente. O que você não sabe é que a empresa em que trabalha está em péssima situação financeira, e não tem como honrar todas as suas dívidas. O PDV foi criado para que a empresa tentasse diminuir seus gastos com pessoal na esperança de poder sobreviver à crise por que passa: um ano depois, você chegará a seu trabalho e ele estará fechado, sem que a empresa tenha como arcar com os débitos trabalhistas. Você ficou sem seu emprego e sem sua segurança. Você também ficou sem seus sonhos.

Em que foi que você errou? Creio que há dois fatores que determinam escolhas como essas, intimamente ligados um ao outro. O primeiro é a ilusão de que podemos controlar nosso futuro. Seria verdade, se nosso futuro dependesse apenas de nossas escolhas e de nossas forças. Ele depende também de contingências naturais, sociais e, na maioria das vezes, também das escolhas e das forças dos outros. O segundo fator é que acreditamos que conhecemos suficientemente as circunstâncias (se quiser: o Destino) e por isso podemos nos preparar para contornar problemas futuros (o nome disso é “Plano B”). Também não é verdade: as circunstâncias muitas vezes são mais complexas do que podemos imaginar, e não as dominamos corretamente.

Sou uma pessoa que leva em conta as possibilidades de as circunstâncias se alterarem tanto a ponto de frustrarem meus planos, e por isso tento me prevenir contra as intempéries da vida. Mas reconheço que o sucesso dessa atitude, em grande parte, não depende apenas de mim. Vou dar um exemplo: há dez anos, minha mulher e eu decidimos mudar de apartamento. Uma amiga nos recomendou uma construtora (ela mesma havia comprado seu apartamento dessa empresa) e especialmente uma vendedora. Procuramos a vendedora e nos foi proposta a compra de uma apartamento na planta. Ele atenderia nossas necessidades, o preço era bom e podíamos pagar pelo apartamento. Foi então que o meu daimon  disse-me: e se a construtora falir? Saímos dali e conversamos com um contador (um profissional com quem a maioria de nós nunca pensa em conversar quando as decisões a tomar envolvem dinheiro). Ele se propôs a analisar os balanços da empresa para verificar sua saúde financeira. Pedimos os balancetes à vendedora, que achou muito estranho aquilo mas, como o que ela queria era vender, conseguiu-os para nós. O contador não precisou de muito tempo para analisa-los. No momento em que apresentamos o documento, ele já sugeriu que não comprássemos o imóvel. Ele, com seu conhecimento técnico, percebeu algo que eu não tinha condições de perceber: Suponha que a empresa tenha vendido todas as unidades do edifício Alfa. Ela então vendia as unidades do edifício Beta e com o dinheiro dessa venda construía o edifício Alfa. Depois ela vendia as unidades do apartamento Gama para construir os apartamentos do edifício Beta, e assim por diante. Em outros termos, era uma pirâmide financeira! Se ela não vendesse os apartamentos do edifício Gama, não teria como entregar o edifício Beta a seus compradores! Na época, eu estava lendo muito sobre investimentos em ações, e sabia que o segredo de Warren Buffet, o maior investidor do mundo, era uma análise fundamentalista das empresas em que investia. Ele e seus técnicos passavam grande parte de seu tempo analisando os balanços de empresas que não eram dele para decidir em quais investir, quais tinham condições de se valorizar, quais eram canoas furadas. Por isso procurei o contador. E o contador estava certo: a construtora foi à falência e o prédio no qual compraríamos nosso apartamento nunca foi construído.

A primeira coisa que me impressiona nessa história é: como a vendedora nunca percebeu que havia algo de errado com o funcionamento da empresa? Ela estava lá dentro! Ela via as unidades do edifício Beta serem todas vendidas antes que a empresa construísse o edifício Alfa! Creio que isso ocorreu porque a sensação de segurança de alguma forma nos cega. Acreditamos que as coisas não mudam ou, se mudam, isso ocorre muito lentamente. Há algo mais impressionante ainda nessa história: como é que eu, em uma semana, percebi o que ela não percebeu por muito tempo? Você vai dizer que foi minha precaução e meu conhecimento. Eu, ao contrário, vou dizer que foi sorte: se não estivesse lendo sobre investimentos em ações, provavelmente não teria tido a ideia de solicitar o apoio de um contador. É claro que que foi importante a minha capacidade de transferir conhecimento de uma questão (compra de ações) para outra (compra de um imóvel), mas é provável que também essa capacidade tenha se formado em mim por algum acaso que desconheço.

Essa história parece querer desencorajar você a mudar sua vida, mas o que ela quer fazer é exatamente o oposto: não desconfie, mas confie nas circunstâncias (no Destino ou, se preferir, em Deus) quando quiser mudar de vida, tenha-as como aliado. É claro que tudo pode dar errado se você mudar, mas tudo pode dar errado também se você não mudar! Isso não exime você de preparar-se para o futuro, e nada nos prepara tanto para o futuro quanto conhecimento sobre as circunstâncias (no meu caso, foi um pouco de conhecimento sobre análise fundamentalista, não o suficiente para interpretar o balanço da empresa, mas o suficiente para saber que isso precisava ser feito antes que eu tomasse aquela decisão, que impediu um desastre financeiro em minha vida). É preciso que esse conhecimento seja um estímulo para você ousar realizar o seu sonho, e não para que você evite realiza-lo.

Muitas vezes (não sempre), dar o primeiro passo é tão difícil porque acreditamos que o Destino é nosso inimigo. Quem ousa pode descobrir que o Destino pode ser também nosso amigo. Aqueles que pensam que tudo vai dar sempre errado não têm porque tentar fazer tudo diferente.

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