Família, urgências e turbulências

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Em seu livro, Cortella apresenta bons conselhos (ainda que sem muita profundidade), que acabarão revelando uma certa incoerência. O autor trata da dificuldade de criar filhos em um mundo tão veloz como o atual, que tira nosso tempo de convivermos em famílias, em que falta um modelo sobre como formar adequadamente jovens e crianças. Isso gera angústia nos pais, uma sensação de fracasso em sua tarefa.
Antes havia mais tempo para conviver, e aparentemente não é possível aumentar esse tempo, então o tempo de que dispomos precisa ganhar em qualidade, ajudando a formar a autoestima dos filhos (para o que é preciso formar os jovens para a perda, tanto quanto para o sucesso). Talvez se justifique atribuir muitas atividades formativas aos jovens, se o objetivo é realmente formá-los, e não como um modo de desobrigar-se de estar com eles ou como a possibilidade de colocá-los em perigo real (na rua ou na internet). É preciso formá-los para que saibam que não podem ter tudo, sempre, já.
Uma boa estratégia é dizer que cada família tem um modelo, e que o modelo desta família envolve hábitos e atitudes (por exemplo, contra a homofobia, o racismo, o bullying, que envolva bons modos, etc.), Outra, é deixar claro que, até os 18 anos, a segurança e o bem-estar (não os desejos) dos filhos são atribuídos aos pais, e por isso algumas decisões não estão em discussão.
O problema do modelo proposto por Cortella é que ele pressupõe, em termos éticos, um extremo consequencialismo (aquilo que não produz mal a ninguém deve ser permitido). Mas há coisas que são erradas em si mesmas, e não por causa de suas consequências (imagine que eu tenha uma pereira com muitos frutos. Se você furtar alguns, eu sequer perceberei, e certamente não serei prejudicado. Mas isso não faz da sua ação algo certo).
Além disso, essa ideia do autor está em conflito com a afirmação do capítulo 15 que, se fizerem tudo para bem formar o filho e ele se desviar, não deveriam sentir-se frustrados na função de pai, ainda que possam se decepcionar com o filho. Essa ideia, como eu disse, está em conflito com o consequencialismo (no consequencialismo, é

o resultado da ação que a avalia, e portanto eu devo sentir-me é frustrado mesmo, se meu filho se desviar).

Publicado por

galuppo

Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e da Universidade Federal de Minas Gerais

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